Ninguém mais quer perder tempo

Um amigo que voltou da Irlanda a poucos meses, inquieto, me disse que ano que vem está voltando. Perguntei pra onde. Ele  respondeu: Pra qualquer lugar.

Tenho ouvido de muita gente, que ninguém mais quer perder tempo, todos querem de uma forma ou outra, fazer cada segundo valer a pena na vida. É, ela passa tão rápido, que se pensar por essa lógica, deveríamos ligar o comando Go On de nós mesmos, e não perder mais nenhum instante.

“O que você deixou de fazer por ter medo? ”. A reflexão passa muito pela inveja do homem quando vê um pássaro voando no céu. Podemos também viver como os pássaros. A escolha está dentro de cada um. Na dúvida, apenas faça as malas e vá. Lembre-se,  o tempo não volta.

 

Partindo da lógica  que ele não volta  é melhor se arrepender do que se fez do que o deixou inquieto e encanado por não tentar. O cotidiano vem nos dando algumas respostas práticas sobre isso. Tenho acompanhado muitos relatos ultimamente que ninguém mais quer deixar pra viver amanhã, o que se pode sentir e experimentar agora, pelo simples fato de não arriscar. Estamos em uma fase de novos desbravadores, pessoas que respiram e tem sede de liberdade, de viver intensamente.

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Voar alto, sem receio de onde o rasante poderá levar, seguir sonhando e acreditando, fazem um dos melhores lemas da vida. Espero um dia, olhar pra trás e ter a certeza que conquistei tudo que imaginei que conquistaria. Esqueça a mansão, o carro do ano  e as coisas materiais. Se até lá conseguir fazer tudo o que tive vontade, ter me tornado um exímio contador de histórias, nada mais vai importar. Estarei com toda a certeza mais próximo do sol.

No início as pessoas vão te chamar de louco, inconsequente, por ter feito as malas, deixado tudo para trás e ter saído em encontro do desconhecido. Depois elas perceberão que a vida só faz sentido, quando começa a ser vivida!

Já algum tempo as pessoas  optaram pela felicidade. Decidiram não só existir, mas de fato viver. Ninguém mais quer perder tempo, ninguém mais quer deixar a vida passar, sem arrancar dela os melhores momentos, e tudo o que nela existe de bom.

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Embarque para um intercâmbio de 6 meses, faça uma viagem de 30 dias, ou compre uma passagem só de ida. Não se preocupe com o amanhã, apenas aproveite e sugue o máximo do agora. Aprenda a dizer mais sim, do que não. Permita-se mais. A vida vai passar e os momentos não irão voltar. Queira sempre mais. Queira e deseje o mundo, queira no mundo ser feliz, e ele fará o mesmo com você.

 

Apenas vá!

Mãe, vou pra Dublin, largarei tudo, vou deixar  você, o cachorro, o trabalho, os colegas, a turma do futebol das quartas, depois de muita DR (longa  diga-se de passagem) a namorada, será que vamos sobreviver ao intercâmbio? Não sei se a saudade vai ser grande, ou imensa. Não sabemos quem vai cruzar o nosso caminho. Apenas que se pensar em tudo envolvido nessa partida, não vou  mais! Morrerei de saudades e ficarei por aqui mesmo.. Pensando bem.. a passagem já tá comprada, não tem volta né? Preciso ir, a despedida já é inevitável.

Mochila nas costas,  portão de embarque, prometi que não teriam lágrimas. Promessa não cumprida. Dou a última despedida em todos, e vejo que é melhor não olhar mais pra trás. Precisarei ser forte e não pensar nas consequências. Será que isso tudo vai valer a pena?

Piso no avião e acho que agora caiu a ficha, parece que estou ainda sonhando, não sei se quero ou não acordar do sonho. Ouço muito  a frase que sua vida muda, quando você muda. Tecnicamente é por aí, bem surreal. Novos ares, amarras sociais desfeitas, novo país,  cultura e nossa! aqui é mais frio do que imaginava. O sotaque é três vezes pior do que me falaram.  Ainda estou tentando sacá-lo. Será que vou  adaptar? Cheguei sozinho sem conhecer ninguém, trombei os primeiros brasileiros na fila do supermercado. Eaí, chegou quando? Já tá trampando?  Calor humano à vista! Nos conhecemos ontem e hoje já somos os melhores amigos. Universos naturalmente diferentes que acabam se cruzando por uma única razão, a sede de liberdade.

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Nessa ilha chove muito, mas não imaginava que fossem 270 dias no ano! Não importa, descobri com o passar do tempo, que o melhor lugar para se estar num dia chuvoso, é dentro de um pub. Aliás tem muitos nesse lugar, parei de contar no lado esquerdo do Liffey. É melhor você esquecer de comprar uma umbrella, ela não vai durar uma tarde. Você entenderá quando chegar.

O feijão é doce, e tem muito amor, ahh,  mas não é um amor sincero, sentirá facilmente falta do tempero, e do aroma do qual você tinha no Brasil. Aquilo sim era vida. Aprendi com os dias cinzas  a apreciar a  sustância de uma Guinness. São questões elementares, quase conceituais. É preciso adaptar e aceitar.

Tô vendo agora o Grêmio na Libertadores. O jogo tá pegado. Vontade louca de estar na Arena. É, querer não é poder. Pelas redes sociais fico sabendo que  lá no Sul tá rolando aquele churrasco. Daqui  me contento com o fish and chips! Não sei se me ligo agora no jogo ou no churrasco da galera a 10 mil quilômetros. Opa! Um a zero pra nós! Vou estampar uma bandeira nossa e copar a região do Temple Bar. Muitos não saberão o que é,  mas meus conterrâneos precisam ver que estou aqui e que precisamos socializar.

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Alguns meses na ilha, e meu ouvido já está  acostumado aos vários sotaques que ouço na cozinha do restaurante que trabalho. Já é quase Natal, na TV do Brasil todas aquelas propagandas apelativas da época, que desejam fazer você chorar a todo o custo. É, estamos longe, estamos na Irlanda e não vai ter como dar um pulo em casa. Meu feliz Natal e Ano Novo a todos será calorosamente via Skype.

Ah! Meu melhor amigo veio visitar. Ficou 15 dias. Mostrei todos os pontos turísticos da cidade. Ele achou um barato a “mão inglesa” do lado direito dos veículos. Provamos toda a diversidade do Poterhouse e apreciamos como nunca as doses da Jameson. Slainté my friend! que já voltou. Ele se foi. Já tô aqui há quase 1 ano, a saudade de todos tá pegando, mas tem um enorme oceano no meio.

Acho que não sou mais o mesmo. Algo mudou. Apesar daquele  aperto repentino no peito, que insiste muitas vezes em não ir, sinto que estou mais forte.  Aquelas incertezas que estavam lá atrás no aeroporto, o medo de não olhar pra trás, agora apenas ordenam instintivamente o contrário. É preciso seguir desbravando novos horizontes, apenas olhando pra frente.

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Não sabemos o que o destino reserva. O fato é que por onde passamos, deixamos um pouco de nós nas pessoas, e cada uma que passa por nossa vida, deixa algo muito especial de si. Apenas siga  sua intuição, permita que os bons ventos e vibrações  o levem pelo caminho mais distante e surpreendente, deixando fluir sua exímia vontade de novos desafios. Não pense. Faça as malas e vá.

O que aprendi com a experiência do rickshaw na Irlanda

Prepare-se para viver os dias mais emocionantes de sua vida. Esqueça a rotina de escritório, as horas cronometradas, a pressão de um dia a dia normal de trabalho. O Dublin Zero apresenta o Rickshaw, um meio de transporte e trabalho que vai mudar completamente o seu estilo de vida e a forma de ver as coisas.

Antes de vir pra Irlanda, ficava fascinado com as histórias que ouvia, que um meio de transporte sustentável, um táxi em formato de bike, fazia tanto sucesso por aqui. O rickshaw é de origem asiática e fez muito sucesso por lá. Chegou a Europa, e hoje é impossível imaginar cidades como Dublin, Londres e Amsterdam sem ele.

O rickshaw é uma das formas de emprego mais populares na Irlanda e também uma das que mais proporcionam autonomia e liberdade. Você é seu próprio patrão, faz seu horário e decide quando quer trabalhar. Na jornada de meu intercâmbio pela ilha verde, tive a oportunidade de fazer parte dessa grande experiência. Além de você levantar um dinheiro extra com o trabalho, é a melhor forma de compartilhar experiências e aprender inglês.

O rickshaw funciona da seguinte maneira: é um meio de transporte com 3 rodas, condicionada à uma estrutura revestida com teto e estofamento, da qual pode levar na média de quatro pessoas. O meio de transporte é muito procurado por turistas para o deslocamento aos pontos turísticos , pubs e baladas.

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Em meu primeiro dia, fui buscar a bike em uma das garagens. Nesse momento você fica dividido entre a ansiedade e a coragem. Quer sair de uma vez para as ruas e se ambientar com o transporte. Um dos desafios iniciais foi realmente conseguir se adaptar com a diferença das regras de trânsito da Irlanda para o Brasil. Aqui a exemplo da Escócia e Inglaterra, a via de circulação é pelo lado esquerdo. Depois de alguns dias de muito treino, a coragem para circular já era maior.

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Com o tempo e a rotina de trabalho, descobrimos com a própria família dos rickshaws brasileiros, que pegar um “lift” (quando se faz uma corrida com o cliente ) é maravilhosa, mas melhor ainda, que um dia de poucos lifts e isso significa nada de grana, e mesmo pegando chuva e frio pelas ruas, você está sempre abrindo sua mente e aprendendo com o novo, com um novo estilo de vida. Vida longa ao rickshaw e sua grande família!

Já não somos mais os mesmos

Quantas coisas mudam com o tempo? Em um dia, 24 horas depois você não é mais o mesmo. A mudança pode não ser sentida com exatidão no momento, mas o fato é: estamos sempre mudando. Era outubro de 2015, atento ouvia as orientações para meu portão de embarque. Na mão apenas o passaporte e a certeza que muito em breve teria um encontro com o desconhecido.

Malas, despedidas, um ciclo cumprido e muitas coisas deixadas pra trás. Quando você embarca para um intercâmbio, pode ter a certeza que independente do tempo que sua viagem durar, você não será mais o mesmo. Um amigo contou que largou tudo para viver 1 ano na Austrália. No Brasil tinha um início promissor na carreira de vendas e administração. Ao chegar em seu novo destino, mudou totalmente a forma de pensar e ver as coisas. Concedeu a chance para um antigo hobby da adolescência. Virou músico profissional pelas ruas de Sydney.

Mudamos nossa forma de pensar a todo instante. É surpreendente como as coisas mudam tão rápido. A velocidade meteórica em que os fatos mudam, muitas vezes, assustam.Penso como as coisas podem estar diferentes em 1 dia, 1 semana e depois de 1 ano é absolutamente surreal.

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A máxima das coisas mudarem a todo momento, tem muito a ver com quem faz intercâmbio. Transformações inevitavelmente acontecerão pra quem fica (amigos, família..). Mas a principal será sentida por você. Em alguns momentos terá que driblar o choro numa chamada de vídeo. Em outros tapear a saudade quando encontra aquela foto perdida na gaveta de alguém querido  a muitos mil quilômetros de distância. Tudo isso faz parte. Você pode não perceber na hora, mas você já mudou.

Existe uma famosa frase que diz “Você é mais forte do que imagina..” Um intercâmbio testa você sob essas condições a todo o momento. Desde os exemplos mais previsíveis, como a saudade que você aprende a enganar, a vida nova que começa a construir longe de seu porto seguro. Essas são algumas das provas que você está diferente, que está constantemente mudando, mais forte do que antes.

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Agradeço todos os dias pelos bons momentos, pelas coisas boas , e as oportunidades imensuráveis que uma experiência desse tipo traz à nossa vida. Você muda quando você muda. Talvez seja um novo ângulo de ver as coisas, talvez as experiências ruins longe de casa fazem aprender e a evoluir. Talvez um conjunto de todos esses fatores.

Estamos sempre mudando. Não saberemos ao certo como as pessoas que estão longe vão estar quando retornarmos. Se encontraremos nossos amigos, nossa família da mesma forma que um dia deixamos. Se veremos o mundo e o nosso em particular da mesma maneira. Não temos absoluta certeza de como a vida estará daqui há seis meses, 3 semanas ou 1 hora. Apenas uma verdade, não seremos mais os mesmos.

Aquele ano novo em Amsterdam

Dizem que as coisas não planejadas são as melhores. Pois é. Uma viagem decidida 48 horas antes tecnicamente tem muito desse raciocínio. Estamos falando de embarcar para Amsterdam em uma virada de ano novo. Atenção tripulação, portas em automático, decolagem autorizada..

O voo saiu pela manhã de Dublin no último dia de 2015! Pouco mais de 1 hora desembarcávamos no aeroporto de Schiphol em solo holandês. Passamos pela imigração tranquilos, apenas apresentando passaporte e GNIB (visto de permanência na Irlanda). Em meu caso não foi solicitado comprovante de reserva em hospedagem, pois a viagem foi planejada de forma rápida. A dica para a chegada em qualquer país é que você possua uma reserva em hotel ou hostel por questões de segurança.

O aeroporto fica afastado do centro de Amsterdam. A melhor opção é pegar o trem que leva até a estação central, na média de 15 minutos. O bilhete pode ser comprado no próprio aeroporto e tem custo em torno de €5,70. Pegamos o trem e momentos depois, chegamos até a estação central. Hora de explorar!

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Destino dos sonhos de qualquer viajante, Amsterdam é muito mais que a “cidade do tudo pode”, quando o assunto é o famoso consumo liberado de drogas,como maconha e haxixe nos vários coffeeshops espalhados pela cidade.(Por pouco isso não mudou em 2012 com um projeto de lei que restringia o uso de entorpecentes.)
Amsterdam também vai muito além do estereótipo do sexo fácil da Red Light District, conhecidoo bairro com ruas cheias de vitrines e modelos à mostra. Com arquitetura erguida a partir do século 16, são 165 canais, 1200 pontes e média de 73 bikes para cada 100 habitantes com 400 km de ciclovias.

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Descemos na estação central e já de cara encontramos os canais e a rua Damrak, onde estão várias lojas e cafés. A dica é: Não vá para Amsterdam em uma virada de ano sem reservar acomodação, pois é impossível encontrar!

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Amsterdam respira energia e cultura. Se você não programou nenhum roteiro, não tem problema algum. Nós também não. É fácil de se perder e encontrar da forma mais surpreendente. É impossível caminhar pelas ruas e não parar para admirar os imponentes e históricos prédios e perder o fôlego nos diversos canais do século 17 tombados pela Unesco. Pegue um barco nos passeios pelos canais e se perca na beleza da cidade.
Se estiver afim de explorar de bicicleta, existem empresas especializadas espalhadas por vários pontos. Os serviços variam de acordo com o tempo do aluguel.

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Exploramos
Fábrica da Heineken
48 horas é pouco para explorar Amsterdam, mas é mais do que suficiente pra respirar toda sua atmosfera. De caminhada da estação Central até a fábrica de uma das cervejarias mais famosas do mundo, a Heineken, você leva cerca de 40 minutos. O tour sobre a história da marca com direito a degustação e uma experiência em 4 dimensões dura 2 horas. Lá é possível conhecer, interagir e vivenciar a trajetória da cervejaria.

Por dentro dos coffeeshops

Os coffeeshops (local onde a venda e o consumo de entorpecentes é regulamentada) existem desde os anos 70 na Holanda. Entre os vários coffeeshops espalhados por Amsterdam, um dos mais famosos é o Bulldog. No Bulldog é possível encontrar pessoas do mundo todo, atraídas pela venda autorizada de maconha e outras drogas não sintetizadas. No local também se vende álcool e outros tipos de bebidas. Com efeitos de iluminação e som ambiente é possível presenciar a famosa vibe da cidade conhecida mundialmente.

Não deixe de ir

Museu Van Gogh
Um local dedicado a um dos maiores nomes impressionistas da história não pode deixar de ser visitado.O Museu Van Gogh oferece a oportunidade de explorar a história e a mente de Vincent Van Gogh, um dos pintores mais brilhantes de todos os tempos. As obras estão organizadas em ordem cronológica. É possível acompanhar a evolução espiritual e técnica do artista.

Casa de Anne Frank
Uma casa que passou a ser um verdadeiro museu para a história. A casa é famosa por ter sido onde a menina Anne Frank e família viveram escondidos dos nazistas. Adolescente alemã de origem judaica, sua história ganhou repercussão após a publicação do Diário de Anne Frank em 1947. Relata suas experiências enquanto vivia escondida num quarto oculto em Amsterdam durante a Segunda Guerra Mundial. O local fica no canal Prinsengracht, no centro de Amsterdã. Para quem sai da Estação Central, o tempo médio de caminhada é de 20 minutos.

 

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Ter histórias pra contar é o que move os mochileiros de plantão. E a energia de Amsterdam falou mais alto para a chegada de 2016. Amsterdam na virada do ano simplesmente estava com vagas esgotadas em hotéis e hostels. O jeito foi se virar e receber o ano novo em meio a turistas e todos os atrativos que a cidade oferece pelas ruas. Com pouco conforto, mas muita alegria, surpresas e boas lembranças pra contar, essa foi disparada uma das melhores viradas de ano da minha vida.

Amsterdam precisa logicamente de muito mais que 48 horas para ser descoberta. Ficou aquele desejo claro de voltar um dia. Mas da próxima vez, de acomodação reservada com antecedência máxima! cheers!

O preço de morar fora

Já são semanas aqui. Pera! Meses? quase um ano? quanto tempo já se passou? A verdade absoluta é que “não sei” há quanto tempo estou longe de casa. Essa confusão natural é colocada a prova diariamente pelo intercâmbio. Aqui você vive muitas vezes um mês em 3 dias. Seis meses em um. Chora, sorri, abraça, chora novamente, e muitas vezes sente saudades de coisas que ainda nem viveu. Tudo isso em um ciclo meteórico de tempo. É tudo mais intenso. Bem-vindos ao mundo surreal chamado intercâmbio.

É preciso estar preparado para as surpresas que o intercâmbio vai te aprontar. Você está em outros país, uma cultura totalmente diferente e passa a vivenciar novas experiências. Por estar com essa ideia constante de movimento e descobertas, muitas vezes o ciclo natural do tempo, passa a sensação que ele realmente é beem maior.

As escolhas irão lhe testar e impulsionar desde as mais simples decisões de sua vida. Isso não é novidade. Um belo dia você está no escritório, fazendo coisas normais da sua rotina e decide simplesmente mudar de vida, recomeçar tudo em outro país. O planejamento é feito e a decisão tomada. Você está pronto para uma das mudanças mais radicais de sua vida. Contudo, não é apenas o fato de mudar de país. Também estará deixando sua família, seus amigos, seu cachorro e tudo que construiu em seu país de origem. Portas em automático. Sua vida nova está iniciando.

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Uma das grandes questões de se morar fora, diz respeito a você não saber o que vai acontecer em 5 minutos. As coisas em uma viagem mudam muito rápido. Existe o risco fatal de tudo que você projetou, como o tempo que ficará fora, mudar drasticamente, você não se adaptar à vida nova, sentir saudades de casa e voltar. Existem várias razões para uma viagem ser interrompida, mas também existem riscos eminentes e reais para você não voltar tão cedo!

Muitas pessoas fazem de sua bandeira no intercâmbio, a escolha de não fazer planos e ir deixando as coisas fluírem naturalmente. E quando elas começam a conspirar, sobre como a adaptação pode ser mais fácil, ou como se inserir no mercado de trabalho do novo país, a probabilidade de não voltar tão cedo é cada vez maior.
Então a vida irá novamente cobrar uma decisão. Ver sua família uma vez por ano? Ver o filho do seu melhor amigo dar os primeiros passos ou assistir tudo apenas pela tela do celular? Receber uma foto do pôr-do-sol da sua cidade e ficar imaginando o quão quente seria se você estivesse lá.. ou pensar em seu prato favorito e a milhas de distância ter a consciência de que ele é apenas imaginário neste momento..

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O que vale mais? Construir a vida em uma nova cultura, respirar novas experiências e trilhar um novo caminho longe de casa? O fim de todas as viagens faz a gente acreditar fielmente em um novo recomeço. Mais tempo para observar as coisas simples da vida e ver até onde você subiu, suas novas escolhas e as perspectivas futuras. Mais brodagem, mais surpresa com as histórias e mais pessoas que cruzam seu caminho sendo legais. Tudo pode mudar em 5 minutos novamente.

“Já não sei mais o que é saudade..”

“Oh meu amor, não fique triste, saudade existe para quem sabe ter..”, a canção já diz, e também passa a ser algo tão comum para todos que estão na outra ponta do atlântico nessa etapa da vida. Já não sei mais o que é saudade, já não sei o que esse sentimento representa, de tanto que ele apertou. É preferível na maioria do tempo não pensar nele. Talvez essa seja uma das sensações que atingem muitos intercambistas após um bom tempo longe de casa. Esquecer que a saudade existe.

Olhei com atenção para as luzes da Grafton essa semana. Tive  a impressão que não eram apenas luzes que ali estavam. O brilho estava diferente. Uma senhora estendeu a mão para um homem que pedia ajuda na Marys Street. Em vez de moedas, foi-lhe entregue uma nota de 20 euros . Mais surpresa com a bondade das pessoas, mais pessoas que eu não conheço sendo legais. E você começa a reconhecer nos pequenos gestos do cotidiano, as nobres ações que importam de verdade, quando a distância entre as pessoas queridas é imensa.

Conversando com amigos que estão  um bom tempo longe de casa (diga-se bom tempo, mais de 6 meses) chegamos a um consenso. Em termos de adaptação, os três primeiros meses são os piores. Tecnicamente não que os próximos serão melhores nesse aspecto, mas quando voce ultrapassa esse período, consegue constituir bases mais sólidas para suportar a saudade.

No meu caso confesso que não tive grandes problemas com a situação. Coloco mesmo na balança o primeiro mês, que é realmente o tempo para se estruturar e começar a assimilar o que a nova cultura do país tem para oferecer e acostumar com a nova vida. Mas este aspecto é variável e cada pessoa tem seu tempo particular.

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No entanto, é inevitável que todo intercambista “tenha seus dias.” Existem momentos que a maioria não sabe explicar a razão exata do porquê daquela saudade absurda estar batendo, e de fato, não se tem muito o que fazer. A solução é procurar apoio com seus amigos, na chamada família do intercâmbio. A boa notícia é que a sensação é passageira. Ela chega, mas logo vai embora e você novamente retoma ao normal para seguir sua rotina.

Caminhava em silêncio pela O’connell Street diante dos vários sotaques , quando uma voz brasileira parou todos os meus pensamentos: “Que saudade da minha filha! mas não vai dar pra ir..” lamentou o rapaz no telefone. Nada é mais humano quando você escuta algo do tipo. Quantos brasileiros, japoneses, africanos, indianos tem essa vontade infinita de tentar reencontrar um familiar? alguém especial que está longe? Mas a realidade é uma só. Nem sempre é possível!

Você vai sentir saudade do cachorro que ficou, daquele dia da semana que você ia encontrar seus amigos e ir para uma festa, vai sentir falta de sua mãe, irmão, do cheiro da comida de seu restaurante favorito, das lembranças e da vida que se tinha antes de viajar. E não poderá fazer nada, a não ser aceitar a condição que você está longe e precisa se acostumar com a nova realidade. Aí entra uma das grandes virtudes que o intercâmbio proporciona. Você ficará muito mais forte emocionalmente e irá aprender a lidar com as adversidades.

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Final de tarde no pier, o sol está se pondo, e você fica ali tentando imaginar o seu futuro a 10 mil quilômetros de casa. O que irá acontecer? a saudade vai apertar mais? seguirá driblando e enganando a saudade? quantos meses mais sob a distância? a resposta quase sempre é desconhecida. Apenas que seguirá vivendo, rabiscando os próximos momentos e histórias. É preciso seguir. Saudações da ilha verde.