“Já não sei mais o que é saudade..”

“Oh meu amor, não fique triste, saudade existe para quem sabe ter..”, a canção já diz, e também passa a ser algo tão comum para todos que estão na outra ponta do atlântico nessa etapa da vida. Já não sei mais o que é saudade, já não sei o que esse sentimento representa, de tanto que ele apertou. É preferível na maioria do tempo não pensar nele. Talvez essa seja uma das sensações que atingem muitos intercambistas após um bom tempo longe de casa. Esquecer que a saudade existe.

Olhei com atenção para as luzes da Grafton essa semana. Tive  a impressão que não eram apenas luzes que ali estavam. O brilho estava diferente. Uma senhora estendeu a mão para um homem que pedia ajuda na Marys Street. Em vez de moedas, foi-lhe entregue uma nota de 20 euros . Mais surpresa com a bondade das pessoas, mais pessoas que eu não conheço sendo legais. E você começa a reconhecer nos pequenos gestos do cotidiano, as nobres ações que importam de verdade, quando a distância entre as pessoas queridas é imensa.

Conversando com amigos que estão  um bom tempo longe de casa (diga-se bom tempo, mais de 6 meses) chegamos a um consenso. Em termos de adaptação, os três primeiros meses são os piores. Tecnicamente não que os próximos serão melhores nesse aspecto, mas quando voce ultrapassa esse período, consegue constituir bases mais sólidas para suportar a saudade.

No meu caso confesso que não tive grandes problemas com a situação. Coloco mesmo na balança o primeiro mês, que é realmente o tempo para se estruturar e começar a assimilar o que a nova cultura do país tem para oferecer e acostumar com a nova vida. Mas este aspecto é variável e cada pessoa tem seu tempo particular.

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No entanto, é inevitável que todo intercambista “tenha seus dias.” Existem momentos que a maioria não sabe explicar a razão exata do porquê daquela saudade absurda estar batendo, e de fato, não se tem muito o que fazer. A solução é procurar apoio com seus amigos, na chamada família do intercâmbio. A boa notícia é que a sensação é passageira. Ela chega, mas logo vai embora e você novamente retoma ao normal para seguir sua rotina.

Caminhava em silêncio pela O’connell Street diante dos vários sotaques , quando uma voz brasileira parou todos os meus pensamentos: “Que saudade da minha filha! mas não vai dar pra ir..” lamentou o rapaz no telefone. Nada é mais humano quando você escuta algo do tipo. Quantos brasileiros, japoneses, africanos, indianos tem essa vontade infinita de tentar reencontrar um familiar? alguém especial que está longe? Mas a realidade é uma só. Nem sempre é possível!

Você vai sentir saudade do cachorro que ficou, daquele dia da semana que você ia encontrar seus amigos e ir para uma festa, vai sentir falta de sua mãe, irmão, do cheiro da comida de seu restaurante favorito, das lembranças e da vida que se tinha antes de viajar. E não poderá fazer nada, a não ser aceitar a condição que você está longe e precisa se acostumar com a nova realidade. Aí entra uma das grandes virtudes que o intercâmbio proporciona. Você ficará muito mais forte emocionalmente e irá aprender a lidar com as adversidades.

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Final de tarde no pier, o sol está se pondo, e você fica ali tentando imaginar o seu futuro a 10 mil quilômetros de casa. O que irá acontecer? a saudade vai apertar mais? seguirá driblando e enganando a saudade? quantos meses mais sob a distância? a resposta quase sempre é desconhecida. Apenas que seguirá vivendo, rabiscando os próximos momentos e histórias. É preciso seguir. Saudações da ilha verde.

Um pensamento sobre ““Já não sei mais o que é saudade..”

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